Uma cidadezinha belga nos arredores de Bruxelas que parecia uma maquete de tão perfeita e organizada. Grandes casas e pequenos castelos. Nos telhados as lareiras com fumaça saindo davam a idéia do clima, quase sempre chuvoso e instável. Quando raramente o sol aparecia entre as nuvens, a variedade de luzes e cores no céu era incrível.
No pequeno prédio da prefeitura, no centro da praça e em frente à uma igreja, se realizava um belíssimo casamento. Os noivos entravam: algumas crianças jogavam pétalas de flores nas diversas tonalidades do arco-íris pelo caminho percorrido por eles até o ‘sim’. A sala onde se realizava a cerimônia civil estava cheia de amigos e parentes. As crianças corriam para todos os lados e quando os noivos saíram do prédio, um turbilhão de bolhas de sabão substituiu o tradicional arroz. E assim os recém-casados saíram sorridentes e emocionados em direção ao futuro que os espera.
Uma festa no parque da cidade esperava os convidados, que dançaram ao som de flautas e soltaram balões de gás na cor branca que contrastavam com o verde das árvores. O sol apareceu neste momento substituindo a insistente chuva que começara de manhã cedo. Todos cantaram e dançaram juntos aos noivos, que vestiam camisas brancas. Cachecóis azul e verde substituíam as gravatas.
No final do dia, se encerraram as comemorações de mais um casamento como tantos outros, realizado por amor.
Há algum tempo fiz uma viagem rápida à Bruxelas e pensei: “Taí uma cidade na qual eu gostaria de morar um tempo, tudo parece tão caótico e interessante…”. Eis que exatamente um ano depois (mais por insistência que por destino) aqui com apenas uma mala de 20 quilos [e quase nenhuma grana] para em trabalhar em um projeto de mídia por exatamente mais um ano.
Estou aqui há quatro dias e me pergunto porquê depois de dois anos morando na Itália nunca senti vontade de escrever nada sobre a dita cuja no meu blog, que está “morto” há algum tempo. Talvez essa nova experiência possa ressuscitar não apenas o blog, mas outras partes de mim que eu tinha deixado de lado.
Há alguns dias atrás estive em um Pub bacana aqui em Torino e tive a oportunidade de ver um show cover do Deep Purple. Fiquei satisfeita, mas um pouco desesperançosa: Quem salvará a herança da década de 1970? Já explico o porque deste ponto de interrogação que passou pela minha mente insana.
A banda era foda, todos muito a vontade no palco. As guitarras gritavam, o vocal era perfeito, teclados e tudo o que uma banda de Rock’n'roll tem direito. Guitarrista cabeludo com calça apertadíssima de couro e tudo mais (a beleza não era o seu forte). O ambiente era fechado e fedia a cigarro, suor e cerveja. O público pulava e urrava acompanhando os clássicos. Tudo estaria perfeito se não fosse por um pequeno detalhe: todos os componentes já deviam estar passando pela casa dos cinqüenta. Eu realmente não vejo problema nisso. Eram músicos do caralho! Mas fiquei um pouco preocupada com o futuro do Rock (estou falando de música boa). Pensando bem, seria música boa na minha concepção… mas como o Blog é meu mesmo, não tem problema.
Talvez eu esteja ficando velha… estou praticamente balzaca. Ok, ainda falta um pouco, mas estou chegando lá. Apesar de não ter vivido a época, acho que década de 1970 foi uma das mais interessantes para o mundo da música do Brasil e do Mundo. No caso do Brasil a ditadura davas as cartas, mas isso acabou de alguma forma enriquecendo a produção musical (sou Historiadora, tá? pelo menos tenho diploma).
Eu realmente queria estar na platéia do Rock`n`roll Circus ou quem sabe no palco (com certeza cantaria bem melhor que a Yoko)… talvez em Woodstock dançando de Topless ou no trem do Rock… Talvez uma lágrima rolasse pelo meu rosto ouvindo a voz da Janis ao vivo ou quando as chamas começassem a consumir a guitarra de Hendrix eu estaria lá queimando também. Viagens psicodélicas…
Agora fico pensando aqui com os meus botões: Aonde vamos parar! Porque o estilo e a música dessa época não influenciam mais tanto a música produzida agora. É preciso procurar muito para achar lugares interessantes, bons shows de Rock (que geralmente são de bandas com mais de 15 anos de estrada) e fugir do “estilinho Beyoncè” que, não vou negar, é ótimo pra dançar quando se está bêbado ou sem consciência. Me preocupo também com o estoque mundial de gel para cabelo que está se exaurindo por causa das 300 aplicações diárias feitas pelos EMOs e Italianos (essa observação é minha, sem mencionar as cuecas aparecendo com estampas que quadros de Renoir e a maldição da chapinha, o que é uma outra história…).
Realmente, o planeta música (ou pelo menos o meu mundinho) está indo por um caminho que não está me agradando muito… Estaremos condenados a remasterizar e passar para Mp3 todos os nossos vinis?
Para finalizar, deixo vocês com uma performance inesquecível do meu “muso” da década de 70, o qual eu pegaria fácil (Diogo que me perdoe), que até hoje mantém seus longos cachos: loiros, lindos, sedosos e intactos.
Depois de tanto tempo, escrevo meu primeiro depoimento dedicado a você. Gostaria de estar olhando nos teus olhos agora, mas eles não se cruzam mais. Somente quando estão fechados.
Dedico a você algumas mudanças na minha maneira de olhar o mundo. A emoção de descobrir aos poucos o que mais tem valor na vida e a tristeza de não poder dividir isso com você, pois os homens nos impuseram fronteiras, demarcaram territórios imaginários e criaram países.
Dedico a você palavras e períodos que se desfazem em poesias incompletas pela falta de inspiração. Fotografias, obras de arte, músicas e dramas, abraços de reencontro, barrigões de grávidas que esperam sorrisos de crianças imaginárias. Dúvidas e certezas. Desamparo, desespero e amor. Esboços de futuro e roteiros de sonho.
Te ofereço frases ininteligíveis, apenas porque no momento não posso te oferecer um simples toque. Se não existissem países, ponteiros de relógio e burocracias inúteis, esse texto não existiria e possivelmente estaria te abraçando agora.
Muita gente fala do tão conhecido “stress da vida moderna”. A correria do cotidiano, rostos preocupados e passos apressados, os esbarrões que a gente toma a toda hora pelas ruas apertadas do centro da cidade. De qualquer grande cidade. Entretanto, para mim, o que melhor simboliza este famigerado stress de que o povo tanto fala é o trânsito. Este sim não respeita credo, cor nem classe social. A não ser para aqueles “eleitos” que rasgam os céus de um heliponto a outro, seja no ônibus lotado ou no conforto do ar condicionado de um carrão, em algum momento (ou em vários) você vai ficar empacado em algum engarrafamento.
Por esses dias mesmo, eu estava engolindo rápido um pedaço de pão antes de sair para o trabalho, quando ouvi na TV o seguinte alarme: “o trânsito na ponte Rio-Niterói apresenta retenções no a partir do vão central (…)”. Poderia ser um dia (in)útil qualquer de uma vida. Como uma usuária de ônibus que se preze, já veio aquela onda de stress subindo pelo corpo todo. Nessas horas a gente já fica pensando no pior. Vou ficar horas de pé e chegar atrasada outra vez. Fora aqueles ônibus que vão passar batidos pelo ponto, com gente explodindo porta a fora. E digo mais, parece que a maioria dos patrões nunca pegou trânsito ruim.
No caminho, entre resmungos, reclamações (incluindo as minhas) e aquele típico calor humano que há em qualquer ônibus durante os horários de “rush” de um dia de verão, uma mulher entrou pela porta da frente e tentou passar pela roleta apresentando um passe. Ao receber a negativa, simplesmente reuniu “todas as forças” e cuspiu na cara da cobradora. Isso mesmo. Não satisfeita ainda disse meia dúzia de palavras que não vou repetir aqui, mas poderia dizer pessoalmente, chutou um banco e saiu do ônibus. A cobradora? Parecia ser daquele tipo de pessoa que não leva desaforo para casa. Levantou imediatamente maldizendo a família da agressora até a milésima geração e partiu para tentar alcançar a mulher, que correu pela calçada tentando driblar os passantes.
Tudo isso apoiado pela maioria dos passageiros que entoava gritos de guerra como se estivessem em final de fla-flu no maraca. “Pega ela!”. “Não deixa barato não!”. “Porrada, porrada!”. E se divertiam com o circo, ateando mais lenha na fogueira. Quando o ônibus freou, o amontoado de pessoas formou uma perfeita “ola”, os passageiros se apoiando uns nos outros para não tombar. Se alguém tentou apaziguar a situação, ninguém viu. O mais interessante e que deu tempo certinho de a cobradora dar uns belos sopapos na mulher, voltar correndo, dar um pulo e cair sentada novamente em sua cadeira antes do ônibus esboçar um movimento. Com certeza, estava de alma lavada e tinha o incentivo e a aprovação do público pagante que só faltou pedir bis. Logo este episódio seria esquecido por todos, pois tudo é passageiro, ainda mais quando se está viajando de ônibus.
Estou dando os primeiros passos no mundo da fotografia. A única passagem que me vem a mente para definir esta experiência remete à infância. Recuperando memórias da mais tenra idade, começo a reviver as cores fortes e impressionantes das flores, o contraste entre o banal azul do céu e o branco das nuvens em um dia de sol. O rosto materno enquadrado de baixo para o alto interrompendo as linhas que delineiam o telhado das casas.
Negativo. Positivo. Luz. Escuridão. Intensidade. Sutileza. A percepção trivial de que as pessoas e paisagens, dependendo do ângulo, resultariam em uma boa fotografia. Cores que vão se esmaecendo em tonalidades cada vez menos vivas. Degradê ao inverso. Contrastes.
Tenho estado um pouco ausente. Pensamentos confusos em tamanha rotação que ensurdecem e cegam, transformando o tempo em mera abstração.
No momento em que desperto, ainda durmo. E enquanto planejo pretendendo não sonhar, penso tão intensamente que tudo volta a rodar. São tantas sombras encobrindo a luz do sol.
Vivendo em preto e branco, em nevoeiro Regurgito um sentimento daltônico que ainda têm suas cores, mesmo que em poucas nuances.
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